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Maria Augusta Fernandes à APDSI: «Nem sempre temos a sorte de encontrar visionários e rebeldes para nos inspirarem»

Maria Augusta Fernandes - Por «Económicas», o atual ISEG, tem Licenciatura em Finanças e Mestrado em Gestão com a dissertação «Organizações sem Fins Lucrativos e a sua Gestão Estratégica». Atualmente, trabalha na Administração Pública, na área da Cultura, e é docente no ensino superior, no ISCAL, onde, entre outras matérias, leciona sistemas de informação, e no ensino e aprendizagem recorre em todas elas às TIC, nomeadamente a Plataforma de eLearning e a Redes Sociais. Ao longo dos tempos, no privado e no público, tem coordenado projetos de reestruturação atravessados por processos informáticos. Autora do blogue Em Cada Rosto Igualdade que consta do V Plano Nacional Para a Igualdade de Género, Cidadania e Não-Discriminação 2014-2017.


1 - Como foi o seu percurso profissional e que barreiras encontrou enquanto Girl in ICT?

Eu não fui propriamente uma «Girl in ICT», e nem hoje serei uma «Woman in ICT», olhando para lá longe até aos dias de hoje, e perscrutando o futuro, talvez a melhor maneira de me apresentar será dizer que desde a primeira vez que ouvir falar em informática, em computadores, de forma natural e em progresso, o que hoje designamos por ICT instalou-se no meu ADN, sem que seja uma especialista. Em vez de barreiras, sobressai que fui tocada pela sorte do acaso. Depois de tirar o Curso Comercial, caracterizado pelas contas, pela produção de dados, nomeadamente contabilísticos e financeiros, comecei a trabalhar (muito, muito «girl») - e embora no meu «métier» não é irrelevante que tenha sido no então jornal Diário Popular, onde me terei apercebido do valor da informação - e ao mesmo tempo continuei a estudar e ingressei no Instituto Comercial. A primeira fortuna, um dos professores de matemática trabalhava na Caixa Geral de Depósitos onde viria a ser o responsável do Centro de Informática - estrutura que por aquela altura estaria a aparecer nas empresas de referência - e ficava mesmo ao lado do Instituto, no Calhariz, em Lisboa. Visionário, dava aulas de computadores para quem quisesse, e íamos ao seu trabalho ver, no terreno, como era. Depois, já em «Económicas» (hoje Instituto Superior de Economia e Gestão) quis mudar de emprego, o que não era difícil, e candidatei-me a um lugar no Grupo C. Santos, para o que nos tínhamos de submeter a testes psicotécnicos. Não gostei do lugar em causa, o que não surpreendeu as selecionadoras, que me ofereceram outro no Centro de Informática que estava a ser lançado - iria trabalhar com o diretor, formalmente seria secretária. Foi o melhor que me podia ter acontecido: tirei cursos na IBM; almoçava com os programadores e os analistas; passava à máquina os manuais; vivia aquele frenesim. Uma memória relevante: era um ambiente masculino, e para além de mim, as outras jovens eram as perfuradoras dos cartões. Por este tempo em «Económicas» dava-se pela primeira vez informática, atendendo à minha preparação, se quisesse, podia ter uns privilégios quaisquer, mas lembro-me que quis frequentar a disciplina, e recordo a avaliação num grande anfiteatro, com «papel e lápis», para o que tínhamos um tempo quase ilimitado. Já licenciada, o que aconteceu no ano da Revolução de Abril, ingressei no então Ministério da Comunicação Social que integrava a Cultura, e aqui me encontro ainda em atividade, e das primeiras reuniões que tive foi, digamos, com os Informáticos centrais da Administração Pública porque na reestruturação que se queria desencadear, liderada por outro visionário, o Dr. António Dray, pretendia-se que a automação possível embebesse tudo. Pode dizer-se que é esta filosofia que tem estado presente em tudo em que tenho estado envolvida … Pensando bem, o que quero destacar, e indo às palavras da pergunta pela positiva: ao longo do meu percurso profissional, a minha relação com as TIC, que não parou de se desenvolver, tem derrubado barreiras.

2 - Quais são os aspetos mais aliciantes de ser uma Girl in ICT?

Sendo rápida, para compensar o tamanho da resposta anterior: torna-nos pessoas do nosso tempo. Na circunstância, faz-nos mulheres e raparigas do século XXI, com mais capacidades para ver o mundo na sua globalidade: mais capazes de produzir e apreciar o belo, e para lutar contra a barbárie que insiste em não largar a humanidade. Aproxima-nos da criatividade e da inovação e faz-nos sentir cidadãs sem fronteiras.

3 - Alguma vez se sentiu discriminada? Do seu ponto de vista faz sentido promover-se a igualdade de géneros no mundo das TIC?

Desde logo, neste particular, mais do que o testemunho individual, assente na leitura pessoal e quantas vezes na opinião, estas matérias hoje são tratadas de forma profissional e passam por estudos científicos, que mostram que há discriminação e que a igualdade tem de ser promovida nas TIC. Porque a igualdade é uma questão de direitos humanos. E porque as PROFISSÕES NÃO TÊM SEXO. E porque, pegando numa máxima da ONU, «IGUALDADE PARA AS MULHERES É PROGRESSO PARA TODOS». Também nas TIC.

4 - O que sugere para atrair mais as jovens para as áreas das tecnologias da informação?

Para atrair mais jovens mulheres, como para muito mais, sugiro que se altere profundamente a forma de ensinar e aprender no ensino regular. Tem de haver ruturas: desde a conceção dos planos até à forma de os implementar. Na essência, haverá exceções, tudo continua - e agora recorrendo à história de vida - como quando entrei na escola. E nem sempre temos a sorte de encontrar visionários e rebeldes para nos inspirarem e apontarem outras formas de fazer. A designada «Ciência dos Serviços» anda por aqui, mas parece-me que esta linha de trabalho está «desativada» e que nunca conseguiu espalhar-se pela academia. Que tal impulsionar uma experiência piloto, cumprindo todas as recomendações quanto à igualdade, em que se criasse verdadeiramente coisa NOVA no processo de ensino e aprendizagem, recorrendo às TIC para tudo.

5 - As tecnologias influenciam o modo como o mundo olha para as Girls in ICT? E contribuem para a igualdade do género?

Tudo isto tem de ser visto como um sistema onde se destaque a interdependência das partes. Assinalemos a visibilidade possibilitada pelas TIC: mostram à escala mundial as desigualdades existentes e ao mesmo tempo os esforços que, um pouco por todo o lado, se vêm a fazer para ultrapassar o fosso existente entre homens e mulheres neste campo profissional, e os resultados dos investimentos feitos. Tornam claro que o progresso das «girls» nas TIC dependem de outros avanços na esfera da igualdade, desde o direito das meninas a irem à escola em tantas partes do mundo - como tão bem o clama a prémio Nobel Malala - até à partilha das tarefas domésticas, passando pelo fim de estereótipos e preconceitos quanto a existirem profissões masculinas e profissões femininas. Já agora, um pequeno apontamento, muito pessoal: em fins de 2011 fui nomeada para integrar a Equipa Interdepartamental para a Igualdade na Cultura. Até aí raramente teria pensado na matéria do ponto de vista profissional. Após as primeiras reuniões pensei que um blogue poderia ser um bom instrumento para levar as pessoas visadas a «mergulhar» nesta problemática, e assim nasceu o Blogue EM CADA ROSTO IGUALDADE. Hoje está no Plano Nacional Para a Igualdade de Género, Cidadania e Não-discriminação 2014-2017. Mais uma nota, quando quero mostrar que a questão da IGUALDADE nas organizações tem de estar em toda a parte e ser preocupação generalizada, acentuo que tem de ser como nas TIC, que, embora em graus diferenciados, estão impregnando o trabalho de todos e todas, sem prejuízo dos/as especialistas. No caso da igualdade também se justifica a existência de pessoas que dinamizem, que impulsionem, que alertem..., mas que não substituam ninguém quando o que se pretende é massificar na linha do que se fixou, por exemplo, para a Administração Pública, ou seja, a integração da dimensão da igualdade de género deve tornar-se um reflexo automático e permanente de todas as pessoas e influenciar todas as suas decisões e práticas. Ora, nisto o papel das TIC é, a nosso ver, insubstituível, e estamos longe do fim das possibilidades.

Observações

Publicado em Abr 18, 2015 , por APDSI em Categoria: Notícias

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